O espelho que não mente: por que criamos versões de nós mesmas para sermos amadas?
Existe uma ideia na psicanálise, desenvolvida pelo psicanalista Donald Winnicott, que me parece falar diretamente com a experiência de muitas mulheres: o conceito de Falso Self.
Winnicott observou
que, quando uma criança cresce em um ambiente onde suas necessidades reais não
são acolhidas — onde ela precisa ser quieta para não incomodar, alegre para não
assustar, forte para não sobrecarregar — ela aprende a construir uma versão de
si mesma que serve ao ambiente. Uma versão funcional, adaptada, apresentável.
O problema é que
essa construção começa tão cedo, com tanta naturalidade, que a gente nem
percebe o que está fazendo.
Você aprendeu a
sorrir quando estava triste?A concordar quando discordava?A diminuir o que
sentia para que o outro se sentisse confortável?
Se a resposta for
sim, você provavelmente conhece bem o seu Falso Self. Ele te protegeu. Durante
um tempo, foi necessário. Mas ele tem um custo alto: o distanciamento de si
mesma.
Jacques Lacan, outro
nome central da psicanálise, nos oferece mais uma peça desse quebra-cabeça.
Para ele, o sujeito se constitui pelo olhar do outro. Aprendemos quem somos
através de como os outros nos veem, nos nomeiam, nos respondem.
A mãe que olha para
o bebê e sorri está dizendo, sem palavras: “Você existe. Você importa. Você é
real.”
Mas o que acontece
quando esse olhar é distorcido? Quando o olhar da mãe, do pai, do parceiro, da
sociedade nos devolve uma imagem que não é a nossa — mas que acabamos
acreditando?
Muitos de nós
crescem diante de espelhos que refletem expectativas, não verdades. Espelhos
que diziam: "Seja mais calma. Seja mais feminina. Seja menos isso, seja
mais aquilo."
E nós, para
existirmos dentro daquele olhar, nos moldamos.
O resultado é uma
mulher que sabe muito bem como agradar — e muito pouco sobre o que genuinamente
quer.
Quando uma mulher
não é encorajada a se perguntar o que quer — quando desde cedo aprende que o
desejo do outro vem primeiro — ela também não sabe responder.
Não porque a
resposta não existe. Mas porque ela foi enterrada sob camadas de adaptação,
expectativa e medo de não ser amada se for honesta.
Aqui está o nó
central de tudo isso.
Existe uma diferença
enorme entre ser amada e ser vista.
Ser amada pela
versão apresentada ao mundo pode ser confortável — mas também é solitária.
Porque no fundo sabemos: não é bem a gente que está sendo amada. É uma
performance. É uma máscara. É uma mulher que aprende a ser.
Ser vista é mais
arriscado. Exige mostrar o que é inconveniente, contraditório, incompleto.
Exige acreditar que o que há de verdadeiro em nós merece amor — apesar de ser
real, mas por ser real.
E esse é um dos
trabalhos mais corajosos que uma mulher pode fazer: não o de se transformar no
que os outros precisam, mas o de descobrir quem ela é quando ninguém está
olhando.
Não existe um passo
a passo simples para isso. Mas existem perguntas que abrem portas.
Quando foi a última
vez que você disse não — sem se justificar exaustivamente depois?
Existe algo que você
deseja, mas nunca disse em voz alta porque parecia grande demais, egoísta
demais, ou tentado demais?
Tem alguma versão de
você que você esconde — não por vergonha, mas por medo de que ela não seja
bem-vinda?
Essas perguntas não
precisam de resposta imediata. Eles precisam de espaço. De uma escuta honesta —
primeiro a sua própria.
A psicanálise não
oferece curas rápidas. Ela oferece algo mais importante: uma forma de olhar
para si mesma com curiosidade em vez de julgamento.
E talvez o primeiro
passo seja justamente esse — perceber que a versão de você que foi construída
para ser amada não é a única versão possível.
Existe outra. Mais
funda, mais verdadeira, mais sua.
E ela está esperando
para ser encontrada.
Entre nós, mulheres
— esse é um espaço para essas conversas. Volte sempre.

Comentários
Postar um comentário